Entrevista com Bruno Rodrigues – O Fazer do Webwriting
“Entendam que texto é algo secundário no primeiro contato de um usuário em um site – e, por isso, temos que trabalhá-lo, antes de tudo, como um elemento visual na página, uma ‘marca visual’. Só depois o usuário irá prestar atenção ao que está escrito.”
Vale a pena conferir o que tem a dizer uma das principais personalidades do webwriting no Brasil. Bruno Rodrigues foi contratado pelo Governo para desenvolver a “Cartilha de Redação Web”, um “padrão” para a escrita na web brasileira, disponível gratuitamente desde junho passado. Seu pioneirismo no assunto também se mostrou ao lançar, em 2000, o primeiro livro em português e terceiro no mundo sobre conteúdo on-line, “Webwriting – Pensando o texto para mídia digital”, e, em 2006, uma continuação, “Webwriting – Redação & Informação para a web”, ambos com edições esgotadas. Eventualmente, atualiza seu site/blog; mais regularmente, escreve a coluna “Webwriting” para o Webinsider; e mais frequentemente, interage pelo seu Twitter. Entre outras atividades, também ministra treinamentos in-company e cursos presenciais e à distancia, sempre relacionados ao que mais conhece: webwriting e arquitetura da informação.
1) Quais as principais diferenças entre o fazer do webwriting de quando você iniciou – em 1995 – e o atual?
Naquela época, o foco era apenas o estudo do comportamento do texto na mídia digital, em especial desde que Jakob Nielsen, ícone da Usabilidade, publicou o resultado de sua pesquisa sobre o assunto, em março de 1997. Desde então, o webwriting ampliou muito seu campo de ação. O que importa, hoje, é o comportamento de todos os elementos da informação na mídia digital: fotografia, ícone, vídeo, infográfico, áudio – e também o texto, que é visto como mais um entre os vários elementos da informação; é ainda o principal, mas é visto como mais um.
2) O que é urgente melhorar na comunicação on-line atual, especialmente no que tange ao webwriting e ao leitor cada vez mais fugaz? Por que desenvolver um “padrão”, criando, assim, a “Cartilha”?
Abrir espaço para a expressão do cidadão é urgente, e muitos órgãos do Governo já têm criado boas experiências com ótimo resultado; e é apenas o início. O trabalho em mídias sociais não é uma área estranha à esfera governamental, tenha certeza – em breve, teremos bons cases de sucesso.
Sobre desenvolver um padrão em webwriting é uma iniciativa louvável do Governo Eletrônico (e-Gov). O objetivo é melhorar a comunicação digital do país com os cidadãos. Somos pioneiros: apenas Estados Unidos, Canadá, Austrália e Nova Zelândia desenvolveram iniciativas contínuas e consistentes neste sentido, e a ‘Cartilha de Redação Web’, o padrão brasileiro de redação para a web, foi o primeiro passo na criação de um conjunto de padrões, do qual já faz parte, inclusive, a Cartilha de Usabilidade.
A “Cartilha de Redação Web”, assim como as outras, contém um conjunto de boas práticas; não são regras. É como o “sumo” de anos de boas experiências comprovadas na área.
Assim, o Governo Federal não quer impor nada. Pelo contrário; o que se quis, desde o início, foi que as recomendações fossem adotadas espontaneamente. E, para isso, era preciso que a “Cartilha de Redação Web” fosse reconhecida como um bom trabalho para se tornar um padrão, de fato.
Felizmente isso tem acontecido de forma surpreendente desde o lançamento, no início do mês passado.
3) Como surgiu o convite para a produção da “Cartilha de Redação Web”? Houve concorrência? Em resumo, como foi o processo, desde escolha do autor – você – e equipe envolvida, passando pela elaboração e preparação, até a versal final?
A equipe do e-Gov pesquisou muito sobre meu trabalho antes de iniciar todo o processo de contratação. O fato de meu trabalho ser pioneiro no Brasil, de eu ser citado no verbete “webwriting” do ‘Dicionário de Comunicação’, de ter prestado consultoria e treinado equipes em quase quarenta empresas e instituições – muitas governamentais – ao longo de uma década e ter escrito dois livros reconhecidos pela área acadêmica, tudo isso pesou muito nesta escolha. Pude constatar claramente que, no momento de ser escolhido para um trabalho de extrema relevância como esse, ter um blog especializado ou uma coluna na web ainda é muito, muito pouco. Mais que um reconhecimento, foi um alerta que serve para todo o mercado.
Fui contratado por “notório saber”, processo que demorou quase nove meses para ser concluído. Primeiro, a equipe precisou comprovar que esta categoria de contratação realmente se aplicava ao meu caso, o que demandou algum tempo. Depois, foi a minha vez, ou seja, precisei reunir toda minha produção impressa e digital na área em quinze anos, de livros a manuais, de cartilhas a colunas em revistas, e enviar tudo para Brasília. Além disso, foram solicitadas cartas de comprovação de vários clientes para os quais prestei serviços.
Desde meu primeiro contato com o Governo Eletrônico, em dezembro de 2008, até o evento de lançamento da ‘Cartilha de Redação Web’ em Brasília, há duas semanas, para 400 profissionais do Poder Executivo, passou-se um ano e oito meses. Foi um longo caminho.
Quanto ao processo de elaboração da “Cartilha”, foi trabalhoso, e tive a imensa preocupação de peneirar toda e qualquer dica que não tivesse sido testada ou comprovada ao longo de vinte anos de existência da web e uma década de relação on-line governo-cidadão.
Para começar, qualquer tentativa de ensinar a escrever “diferente” para a web foi limada, assim como esclareci muito bem qualquer associação imediata entre webwriting e jornalismo on-line, já que a maioria das informações dos sites governamentais não é noticiosa, e sim institucional ou sobre serviços.
Depois, pesquisei mais de 700 sites em português, inglês, espanhol e francês ao longo de dois meses para dissecar cada detalhe do que já foi feito lá fora, do bom ao ruim. E, é claro, fiz uma radiografia profunda de cada um dos sites governamentais da esfera pública federal brasileira. Aí, para costurar toda esta pesquisa, coloquei para trabalhar meu olhar, minha experiência.
Perdi a conta de quantas vezes revisei o material, de quantas vezes o texto foi e voltou do e-Gov, de quantos itens foram incluídos e retirados da “Cartilha”, inclusive por conta do período de consulta pública, em que qualquer brasileiro podia dar sugestões e criticar. Mas quem dava o tom era eu, todo o tempo, e essa liberdade foi fundamental.
4) Quais as maiores oportunidades surgidas por meio da “Cartilha” – que já foi enorme – e qual o peso de ser o principal responsável pela sua confecção?
Oportunidades têm surgido, sim, mas o que ficou foi o orgulho. Impossível, em um momento como o de Brasília, frente a frente com centenas de pessoas que foram conhecer o trabalho final, você não ter a consciência de fez algo de importante para o país, de se sentir 100% brasileiro. Quando, ao final da primeira manhã (foram dois dias), saí do auditório, estava muito orgulhoso. Só me lembrava de uma frase twittada há algumas semanas pelo Fábio Moon, jovem cartunista brasileiro com muitos trabalhos de destaque no exterior e que há um mês voltou de uma participação no London Literature Festival: “Agora, é preciso celebrar as conquistas. Em voz alta, com o orgulho de quem sabe o trabalho que dá viver essa vida com intensidade”.
5) Com uma demanda para produção de conteúdo – com qualidade – na comunicação on-line a cada dia mais crescente, em vários setores, por que seus livros não têm tiragem regular, enquanto borbulham lançamentos de livros ligados à web e comunicação, especialmente a digital?
Webwriting ainda é um pequeno nicho dentro de Comunicação Digital. Mas meu terceiro livro, a ser lançado no início de 2011 (seria no final deste ano, mas tive que adiar por conta da “Cartilha”), terá tiragem maior.
6) Quais suas principais recomendações didáticas para as pessoas que estão começando ou que pretendem começar a produzir conteúdo profissionalmente, principalmente para a web?
Entendam que texto é algo secundário no primeiro contato de um usuário em um site – e, por isso, temos que trabalhá-lo, antes de tudo, como um elemento visual na página, uma “marca visual”. Só depois o usuário irá prestar atenção ao que está escrito. É impactante, mas é assim que as coisas funcionam.
7) Como você vê a relação das empresas (conteúdo em sites e blogs corporativos, institucionais e profissionais) com as mídias sociais – especialmente Twitter – e com posicionamento nos buscadores (SEO)? Os profissionais e as empresas dão a devida atenção à produção de conteúdo, e ainda, quanto à redação para os buscadores em contrapartida ao fator humano?
Cada vez mais as empresas se preocupam com SEO, por exemplo, mas há muita informação descartável sendo produzida nesta área, e muitos especialistas surgem da noite pro dia – já que é um conhecimento disponível na própria web, ao alcance de qualquer um. Torna-se expert instantâneo quem tem mais tempo para pesquisar o assunto, o que não necessariamente é sinônimo de qualidade ou benéfico para o mercado. Empresas como “Mestre SEO” e profissionais como Paulo Rodrigo Teixeira fazem a diferença.
8 ) A grosso modo, o que diferencia a redação para a web dos demais tipos de escrita e redação? Com uma leitura digital naturalmente fugaz e com o crescimento do mercado de e-books e e-readers, quais as mudanças e perspectivas para o webwriting?
Na escrita para a web há maior relação entre texto e as características tecnológicas da mídia. Além disso, o design tem uma grande influência na absorção do conteúdo.
Para o futuro próximo, eu vejo ações de webwriting em transmídia, e-books de terceira geração e (sempre) mobile.














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