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Como as bitcoins estão mudando o cenário do poker nos EUA

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Midia Boom
Escrito por Midia Boom

Os Estados Unidos se vangloriam historicamente em serem um país democrático e cujas liberdades individuais são respeitadas. Todavia, tais princípios acabam por ter uma “reserva do possível” quando o interesse público é mais forte. Um desses exemplos é como a nação de Obama lida com a questão do Poker Online.

Primeiro, vamos contextualizar o Poker

O poker foi criado no século XVIII nos próprios Estados Unidos. Mais especificamente, em um dos seus Estados mais ao sul, a Louisiana. O jogo primeiramente se espalhou para o oeste junto da expansão geográfica da União – a chamada Marcha para o Oeste. Junto dele veio uma imagem atrelada a cowboys – os jogadores. À época a imagem típica do jogador de poker era a de um barbudo, mal encarado, bebedor de uísque e cuja cintura portava um revólver.

Isso mudou; Ao longo do final do século XX, a televisão e a internet ajudaram a transformar o poker num esporte – e não simplesmente num jogo. A primeira popularizou o poker e o transformou em algo emocionante de se assistir (graças às microcâmeras instaladas nas mesas, dando a possibilidade aos espectadores de saber o que cada jogador tem à mão. A segunda popularizou o esporte de modo que este finalmente saiu dos cassinos e das reuniões de amigos para chegar às casas de qualquer um com apenas um clique. Alguns sites, inclusive, colaboram nesta popularização por meio de tutoriais que ensinam como jogar poker.

E ele é um esporte mesmo, por mais que não pareça. O poker se difere das apostas esportivas ou da roleta porque o elemento “sorte” é sobrepujado pela habilidade do jogador – ao contrário do que ocorre no resto do “jogo”, como no exemplo das apostas. Nestas, a sorte é a determinante. No poker, a habilidade de se prever matematicamente as chances de vitória – e daí tomar decisões – acaba sendo a determinante no longo prazo.

Tanto é que recentemente a Associação Internacional de Esportes Mentais incluiu o Poker como uma de suas modalidades abarcadas. Agora o carteado está no mesmo rol de outros esportes mentais como o xadrez e o gamão, por exemplo. O crescimento é tanto que em alguns jogos universitários, o poker aparece como modalidade de demonstração – o xadrez já é modalidade permanente há alguns anos. Mesmo assim os Estados Unidos continuam com um pé atrás.

E isso se dá por um motivo simples: elas são protecionistas. Aos Estados Unidos – mais objetivamente, aos congressistas que sofrem lobby dos cassinos – não interessa legalizar o poker online, haja vista que se houver uma restrição do esporte exclusivamente aos cassinos, estes lucrarão mais e o lobby a quem de fato faz as leis continuará. Mais: os cassinos estão sitiados dentro dos EUA; portanto, são empresas que geram empregos para os americanos e cujos impostos são pagos aos Estados Unidos (sejam aos Estados ou à União). Isso não acontece com os sites de poker online, todos eles sitiados fora da América.

E como essa situação está mudando?

Se você não sabe, os Estados Unidos nasceram da contestação ao próprio governo central – como no caso, o inglês, no contexto da Tea Party em Boston nos momentos antecedentes à independência das 13 colônias. Assim, é bastante enraizada no povo americano a chamada Desobediência Civil, conceito formulado originalmente por Henry David Thoureau no século XIX. Em suma: se o governo está absurdamente errado e está impondo condições injustas a seu povo, não obedeça a lei ou normativa em questão.

No caso, os profissionais (que são praticamente atletas) de poker são os que protestam de sua forma. Ou seja: acharam um jeitinho para conseguir jogar poker online dentro do território americano.

As bitcoins: uma solução possível

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O BitCoin é uma moeda paralela não oficial e não governamental que circula livremente na internet – e que já é aceita em sites como a Amazon e começa a engatinhar no Brasil. O site Wikileaks, por exemplo, também aceita a moeda virtual como forma de doação. Como é paralela ao dólar, não pode ser taxada pelo governo americano, haja vista que é outra moeda, com indicadores econômicos e flutuação própria.

Eis o que acontece: o usuário compra bitcoins como se estivesse trocando o dólar por qualquer outra moeda do mundo (não precisa dar satisfações ao governo para tanto). Depois, deposita essas bitcoins em sites de poker que as aceitam. Por fim, podem resgatar tais bitcoins do site em questão e trocá-las por dólar novamente. Tudo de maneira legal. Abaixo você vê a cotação de uma bitcoin em relação ao dólar americano (coluna da direita). Abril de 2013 foi o mês de pico da moeda, quando o Financial Crimes Enforcement Network, agência governamental americana, deu respaldo legal à moeda através de declarações extremamente positivas. Através da oferta e da demanda, contudo – embasando-se no lastro da moeda – ela voltou à cotação de valor real, tendo fechado este mês a pouco mais de 140 dólares.

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Lógico, as moedas não surgem do nada – questão do lastro. A própria rede “cria” as moedas, de modo descentralizado, a cada 6 vezes por hora. Essas moedas são distribuídas de modo aleatório a usuários que rodam o programa e o sustentam com o poder de processamento de seus computadores. Ou seja: qualquer usuário pode ganhar esse lote; a probabilidade de ser sorteado aumenta na medida que o poder de processamento de seu computador (e por conseguinte a colaboração do usuário com a rede) aumenta. Esse ato, de gerar bitcoins, é chamado de “minerar”- em alusão a minerar ouro. A analogia é simples: as bitcoins já estão lá. Os usuários que mais se empenharem no processo de bitcoins tem uma chance de “achar” (dado que o processo é aleatório) as bitcoins com mais facilidade – o que não significa necessariamente que acharão, dado o elemento sorte (que contribui para a descentralização do mercado). Essa descentralização é essencial para evitar inflação e outros males de economias com entes reguladores centralizados, como o Banco Central. Tal aspecto é a principal vantagem da Bitcoin; da mesma forma que o ouro, ela tem de ser “minerada” – ao invés de ser emitida, como as moedas fiduciárias. A principal desvantagem, contudo, é justamente essa ausência de controle e/ou regulamentação da moeda em atividades ilícitas, principalmente na deep web.

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Evolução do “logo” da moeda. O cifrão, característico das unidades monetárias, sempre fez parte da identidade visual.

Vai dar certo?

A questão que fica é: quanto tempo isso vai durar? Logicamente o Estado americano já está ciente dessa atuação paralela. E não lhe interessa que haja cidadãos americanos movimentando dinheiro sem que haja taxação sobre tais movimentações. Seja para o poker online ou para qualquer outra atividade, a mão visível do Estado encontrará uma maneira de cercear movimentações financeiras livres. Recentemente, inclusive, o Departamento de Tesouro americano já começa a estabelecer diretrizes para o uso da moeda virtual.

Afinal, a César o que é de César.

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